segunda-feira, 26 de novembro de 2018

[Resenha] Um artista do mundo flutuante

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Autor: Kazuo Ishiguro
Páginas: 232
Editora: Companhia das Letras
Masuji Ono, protagonista e narrador deste primoroso romance do vencedor do prêmio Nobel de literatura, é um homem de seu tempo. Pintor de grande renome do Japão antes e durante a Segunda Guerra Mundial, ainda jovem Masuji desafiou o pai para seguir a vocação artística e, durante seu desenvolvimento criativo, lutou contra as amarras da arte tradicional japonesa para dar lugar a uma produção propagandística a serviço de seu país. Usando a influência de que gozava perante as autoridades do governo imperial, Ono buscava ajudar pessoas de bem em situações menos favorecidas do que a sua.
Ambientado nos anos imediatamente após a rendição, o romance descortina a vida de Masuji já aposentado, procurando entender as mudanças vividas pelo país e impressas na mentalidade da geração mais jovem, da qual fazem parte suas duas filhas. Ao procurar entender por que as negociações para o casamento da mais nova delas foram abruptamente interrompidas, o protagonista se vê levado a rememorar sua vida de artista e professor respeitado e a enfrentar a consequência dos próprios atos no destino de seus descendentes.
Retrato comovente de um momento histórico cujos desdobramentos se veem até os dias de hoje, Um artista do mundo flutuante é também um poderoso romance sobre a velhice, a culpa e a passagem do tempo.

Uma primeira leitura de um livro de algum autor consagrado - e agora laureado com o Nobel de Literatura -, sempre gera uma certa expectativa e receio de que a mesma não será como o esperado. A indicação é que se esqueça esse tipo de atitude - que mais atrapalha do que ajuda - e inicie o quanto antes. Nesse caso, a demora foi por falta de tempo e um resquício de vontade de ler algo contemporâneo. 

A narrativa não linear, cheias de pensamentos e lembranças de vários períodos da vida do famoso pintor Masuji Ono, perpassa por um intervalo de tempo que compreende desde sua infância até sua velhice. Prepare-se para encontrar uma sequência de divagações do personagem, pois o autor monta sua sequência de cenas aproveitando da nossa memória como leitor para intercalar e conectar os fatos do passado, presente e futuro, e assim te desafia a ser capaz de compreender o que leva os personagens a agirem como narrado. 

Achei essa estrutura do texto bem peculiar, pois por não ter lido tantos livros que utilizasse esse recurso - e não sei dizer se isso é um traço do estilo do autor - os primeiros capítulos foram revelando aos poucos os aspectos simples da vida de alguém que perdeu dois entes queridos (filho e esposa), viveu no período da Segunda Guerra Mundial e presenciou significativas mudanças no Japão. Essa narrativa inicia-se em outubro de 1948 com reflexões da compra da casa onde mora; a constante revisitação de lugares do passado; preocupação que o seu passado afete o futuro da sua filha mais nova; receio sobre suas atitudes e a consequência destas em relação ao seu crescimento e reconhecimento como pintor; a motivação por trás das condutas de seus professores, alunos, a influência daqueles; o distanciamento das amizades e parcerias; e chega-se a abril de 1949, novembro de 1949 e junho de 1950, cada período tendo um marco, mas a revisitação ao passado é necessária para encaixar pequenos recortes que são narrados como se nós soubéssemos o que está acontecendo, mas o autor deixa para explicar a razão apenas algumas páginas depois. 

Achei a narrativa muito interessante e ágil; talvez para alguns seja maçante caso o leitor não se interesse pela singularidade do cotidiano e sutilezas da vida, mas para mim o autor conseguiu narrar com um sopro de leveza o peso das nossas vidas, nossas atitudes perante o outro, e a forma como se reage a isso. 

P.S.: A explicação para o título do livro encontra-se pelo meio do livro, e achei a escolha da metáfora bem acertada.

10 comentários:

  1. eu recebi esse livro da companhia das letras e simplesmente amei!
    me fez refletir bastante sobre o presente e o futuro
    adorei conhecer a escrita do kazuo e nao vejo a hora de outros

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  2. É a primeira resenha que li desse livro e gostei da premissa.
    Provavelmente iria estranhar um pouco a narrativa, mas acredito que mesmo com a ressalva iria aproveitar bem a leitura. <3

    Sai da Minha Lente

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  3. Oi Dandra,
    Primeira resenha que leio desse livro e fiquei contente por saber que a narrativa não é linear, eu gosto desse recurso em alguns livros e já li muitos livros assim.
    Além disso, esse livro tem uma proposta bem interessante, principalmente por conta do fato de ele se passar na SGM
    Vou anotar a dica de leitura, sem dúvidas.
    Beijos ♥

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  4. Oi, tudo bem?
    Eu já ouvi falar do autor, mas ainda não tive a oportunidade de ler nada dele. Ainda não conhecia esse livro, mas achei a premissa bem interessante. Eu tenho uma certa dificuldade com narrativas não lineares, então, acredito que eu precisaria ler esse livro em um momento em que pudesse me dedicar exclusivamente à leitura dele.
    De qualquer forma, adorei sua resenha e fiquei muito curiosa para ler. Vou anotar a dica para ler em outro momento, quando esteja mais preparada.
    Beijos!

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  5. Não tinha visto o livro ainda,e apesar de parecer interessante, não e uma leitura que faria no momento. De qualquer forma, vou anotar esta dica.
    Bjs Rose

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  6. Olá!
    Este livro parece nos fazer refletir sobre muitas coisas da vida. Não sei se seria uma leitura massante pra mim, e fico feliz que tenha gostado, por isso irei dar uma chance também. Espero gostar

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  7. Oi, Andressa. Tudo bem?
    Que resenha encantadora! Eu ainda não li o livro, mas estou bem curiosa com ele, acredito que eu vá ter uma boa experiência com a leitura e gostei muito de poder ver a sua opinião com ele. Espero ter a oportunidade de ler em breve.

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  8. Olá, não conhecia o livro mais ele parece ser surpreendente para se ler principalmente por ser um escritor nobel, mais ele não me interessou vou passar a dica

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  9. Olá, é a primeira resenha que eu leio desse livro mas, ele está na minha listinha de compras faz muito tempo, porque, pretendo ler todos os livros do autor! Acho a escrita dele muito critica, necessária e atual mas, concordo quando você diz que pode ser maçante para alguns leitores porque, ele divaga muito sobre as questões cotidianas.
    Parabéns pela resenha e espero encontrar outros livros dele por aqui.

    Beijos e Abraços Vivi
    Resenhas da Viviane

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