quinta-feira, 29 de novembro de 2018

[Resenha] O tempo desconjuntado

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Autor: Philip K. Dick
Páginas: 272
Editora: Suma
Com edição especial em capa dura e projeto gráfico arrojado, uma obra inédita de Philip K. Dick chega ao Brasil, trazendo um retrato único da construção do medo, da desconfiança e da própria realidade.
Ragle Gumm tem um trabalho bastante peculiar: ele sempre acerta a resposta para um concurso diário do jornal local. E quando ele não está consultando seus gráficos e tabelas para o trabalho, ele aproveita a vida tranquila em uma pequena cidade americana em 1959. Pelo menos, é isso que ele acha.
Mas coisas estranhas começam a acontecer. Primeiro, Ragle encontra uma lista telefônica e todos os números parecem ter sido desconectados. Depois, uma revista sobre famosos traz na capa uma mulher belíssima que ele nunca tinha visto antes, Marilyn Monroe. E para piorar, objetos do dia a dia começam a desaparecer e são substituídos por pedaços de papel com palavras escritas, como “vaso de flores” e “barraca de refrigerante”. A única alternativa que Ragle encontra para descobrir o que está acontecendo é fugir da cidade e de todos esses acontecimentos bizarros, contudo, nem a fuga nem a descoberta serão tão fáceis quanto ele imaginava.

Segundo livro do autor Philip K. Dick que eu leio; o primeiro contato foi com um livro de contos chamado Realidades Adaptadas (resenhado aqui no blog) que reúne dentre os sete contos, alguns que fizeram sucesso em suas adaptações para o cinema. Dessa vez, a leitura de uma narrativa maior e mais detalhista, deu-me a oportunidade de perceber similaridades com seus contos e a possibilidade de conhecer a capacidade do autor em sustentar suas ideias mirabolantes por mais de 200 páginas.

Em O tempo Desconjuntado, eu me senti dentro de um filme antigo, desses de sessão da tarde, aquele filme que sabemos ter uma certa áurea de ficção científica, mas a fotografia é tão simplista, que não corresponde ao que o diretor e seu roteirista pretendiam fazer: um Estados Unidos de 1959, fotografia de uma cidade do interior, um mercado, uma família, um homem que resolve enigmas do concurso de um jornal, um casal de vizinhos que está sempre se intrometendo nos assuntos dessa família; e inicialmente a narrativa te prende e te faz acompanhar esses detalhes como se fossem normais, coisas corriqueiras e comuns da vida de certas pessoas. Até que o personagem principal, Ragle Gumm ou o Sr Gumm, revela para o leitor que ele consegue perceber alguma quebra na realidade, e isso o deixa desnorteado, assim como aconteceu com seu cunhado Vic, que parecia buscar algo em um cômodo, que sempre tivesse estado lá, mas ao perceber seu erro, fica confuso. Essa sensação incômoda em comum unirá os dois ao longo da narrativa.

O rádio construído por Ragle para seu sobrinho Sammy, é o elemento que trará algo fora da curva à narrativa do livro. É justamente nesse momento que as teorias e suposições do Ragle começam a fazer sentido, e toda a família segue o seu raciocínio: o cunhado Vic, sua irmã Margo, e seu sobrinho Sammy.

Aos poucos você começa a fazer parte da imaginação fértil do protagonista, e logo em seguida este foge em busca de respostas, e a partir daí o livro começaria a caminhar para seu ponto alto e revelador da trama. Infelizmente, é nesse momento que a narrativa começa a ficar entendiante. A corrida contra o tempo, a busca por respostas, o fator desconexo da realidade e a explicação para todo mistério, foram tão sem substância que mesmo reconhecendo certos elementos presentes em seus contos lidos anteriormente, e achando certas partes muito bem executadas, em sua maior parte, a narrativa apresenta-se muito amadora, e seu final ficou tão vago que até eu chegar às suas últimas linhas, lembrei-me do livro Solaris (resenhado aqui), que transmitiu a mesma falta de conexão e convergência de ideias.

Talvez por não ser uma obra tão conhecida, e até este ano, ainda inédita no Brasil, fazer esse elo com seus contos e criar tanta expectativa, não seja muito justo, afinal o autor tem tantas obras mais reconhecidas e de maior sucesso comercial que eu poderia ter lido, mas o que chegou até mim foi isso, e essa foi a minha impressão.

4 comentários:

  1. Olá!
    Vi sobre esse livro esses dias e com essa capa jamais imaginei um enredo assim. A história parece muito interessante no ponto de visto do Sr. Gumm e suas experiências, mas por misturar com elementos de ficção científica sempre tenho receio da narrativa se tornar muito cansativa e acabar abandonando a leitura.
    Gostei de saber mais sobre suas considerações!
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  2. Oi, tudo bem?
    Eu tenho visto muitos comentários sobre esse livro e nada do que li até agora me deixou curiosa para conferir. A premissa é até interessante, mas esse é um gênero que não leio muito. Além disso, pelo que percebi a leitura vai se tornando cansativa e a trama não se sustentou bem.
    Uma pena que você não tenha gostado tanto do livro, mas adorei ler sua resenha e saber sua opinião sobre ele. É um livro que não faz muito meu estilo e acredito que não seria uma boa leitura para mim.
    Beijos!

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  3. O autor é muito elogiado e eu não conhecia este título dele. Fiquei apreensiva pela parte em que você ficou entediada com a narrativa, mas ainda assim, quero conhecer a obra.
    Beijos

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  4. Confesso que a trama não chamou minha atenção. E é como você disse, tantas obras do autor né; pelo visto é melhor optar por outra mesmo dele. Porém, quem sabe eu dê aquela oportunidade a esse título e quem sabe até goste.

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